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"Há pais e pais"
Desde o Brasil, o professor José Pacheco

Penso na Escola da Ponte e pergunto: por onde começar? Por que não  conseguimos que as nossas iniciativas tenham concretude? Com a autonomia conquistada, como é vista a Escola da Ponte, pelo sistema educacional português? As demais escolas reconhecem a Ponte como um projecto de sucesso, que atravessa continentes?

Foi o Wilson que respondeu a estas interrogações. A Ponte foi a primeira escola a assinar um contrato de autonomia com o Ministério da Educação. E não existem modelos para isto. O modelo está sendo construído pela Ponte.

Em Portugal, a Ponte permanece ainda um pouco invisível, o que tem seu lado positivo. A visibilidade que ela ganhou teve como um dos resultados uma certa perda da tranquilidade. São muitos visitantes, diariamente. Isto chama a atenção e atrai invejas e ciúmes de outras escolas que não atraem ninguém.

Já se agrediu muito a Ponte por inveja. Panfletos foram lançados em frente à escola, fazendo acusações infundadas, maledicências. Artigos anónimos publicados em jornais locais repetiam a mesma agressividade. Mas a fama da Ponte lentamente se espalha e já há em Portugal quem deseje fazer mudanças nas suas escolas, inspiradas neste trabalho. A Escola da Ponte de Vila das Aves, é, também, a instituição mais conhecida e respeitada no estrangeiro. Mas a resposta do Wilson evidencia a actualidade do provérbio “santos da porta não fazem milagres”.

Ao longo de décadas, a Ponte foi alvo de diversos “atentados”, mas resistiu. Assistiu ao fim de muitos projectos e viu os autores desses projectos – os mais nobres professores que conheci, os mais capazes, os mais sonhadores… – serem perseguidos e destruídos. “In the presence of greatness, pettiness disappears. In the absence of a great dream, pettiness prevails."

Começar um projecto é fácil. Preciso é saber traçar mapas para que a navegação escape aos baixios e escolhos, preciso é encontrar uma gramática da sobrevivência, num mar povoado de monstros.
As escolas poderiam ser espaços de exercício de uma fraternidade redentora. Mas, nas escolas que ainda vamos tendo, o leão ainda não aprendeu a pastar com o cordeiro. E, quando professores ousam agir, é frequente ver que o homem ainda é o lobo do homem.

Resta saber que a Ponte vai criando raízes em lugares onde eu nem sonhava haver terra fértil. A Aurora enviou-me um email: Escutei a sua palestra. Não entendo como pode ir para o estrangeiro, sabendo que precisamos desesperadamente de ajuda. Em Portugal, a Ponte também é respeitada pelas pessoas que estão verdadeiramente empenhadas na educação dos seus filhos. O que eu mais gostaria de ensinar aos meus filhos é que o infinito está onde nós quisermos.

O Wilson e a Aurora não são professores. O Wilson mora em Natal, no Brasil. É pai da Stella, que foi aluna da Escola da Ponte. A Aurora mora na cidade do Porto, em Portugal. É mãe de duas crianças e tenta ajudar os professores da escola dos seus filhos, na busca de caminhos novos. 

Há pais e pais. Há os que reforçam a mesmice e se aliam a pessoas sem escrúpulos para destruir projectos. E há os que apoiam professores que arriscam rupturas e interpelam inércias.

voltar ] 10 de Outubro de 2008

Prof. José Pacheco




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