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Na Geometria do Tempo - Registo de Memória

O Frade Santo

Reza a história que havia no mosteiro de Landim, um frade de nome Anastácio que padecia de uma enfermidade incurável.

Por via disso, não podia tomava banho, o que obviamente dava origem a que criasse hospedeiros indesejáveis, para além do mau cheiro, por isso, era censurado pelos outros frades que não se conformavam com a atitude do seu comportamento e afastavam-se dele.

Certo dia, alguns frades tiveram de ir à pequena capela de S. Bartolomeu de Ervosa cumprir determinadas obrigações. Frei Anastácio mostrou vontade de os acompanhar, o que lhe foi imediatamente negado, apesar disso o martirizado frade não desistiu, meteu os pés ao caminho e lá foi.

Chegado á margem do rio, o bom frade reparou que os seus companheiros não lhe tinham deixado nenhum barco, e como a ponte da Lagoncinha ainda ficava longe, lançou o capote à água e saltou para cima dele e assim atravessou o rio sem se molhar, e sem esforço.

Os frades que tinham recusado a sua companhia, ao saberem da milagrosa travessia, rodearam frei Anastácio dos maiores carinhos e honras, mas tudo o frade recusou, advertindo os companheiros que enquanto tivesse as graças de S. Bartolomeu de Ervosa, não temeria transpor os mais difíceis obstáculos que Satanás opusesse as ás suas intenções.

Depois de conhecido o sucedido no Mosteiro de Landim foi considerado santo.

 

Milagre de S. Bartolomeu

Nas minhas constantes pesquisas para a elaboração desta rubrica encontrei um artigo publicado no Jornal de Santo Thyrso, de 20 de Março de 1953, assinado por Joaquim de Cidnay, e que nos relata um Milagre de S. Bartolomeu de Ervosa, acontecido nos princípios de século XIX, no tempo em que os Beneditinos ainda colhiam as suas rendas nos Lugares da Carvoeira, Cavadas e S. Bartolomeu. Tinham como seu recebedor o Sr. Bernardo Machado, da família dos Cavadas, mais conhecido pelo Bernardo do Recibo. Certo dia, andava o Sr. Bernardo do Recibo, na sua cobrança dos direitos do Mosteiro, e no Lugar da “Fonte da Piolha”, sentiu necessidade de descansar á sombra de umas frondosas carvalheiras, onde encontrou o Sr. Leandro, bom amigo, e logo entabulou conversa.

Estavam os dois amigos na melhor das harmonias, quando ouviram gritos de gente aflita para os lados de Cavadas, perante tal alarido, dirigiram-se a prestar socorro, a quem aflito o requeria.

Chegados ao local verificaram tratar-se da tia Eufrásia d’ Ervosa que vinha das azenhas d’ Argemil, onde fora buscar uma taleiga de farinha e que ao passar no Largo dos Cinco Caminhos, inexplicavelmente levantou-se tal ventania que a atirou por terra, resultando-lhe a perda de movimentos nas pernas acompanhadas de fortes dores. Os dois amigos, vendo no sofrimento da velhinha obra do Satanás, carregaram-na até á capela de S. Bartolomeu e lá rezaram os três a S. Bartolomeu, implorando remédio tão grande mal, ainda há bem poucos momentos tinham começado a orar, já a tia Eufrásia perdia os sentidos, para logo após recuperar as forças e levantar-se como se nada lhe tivesse acontecido.

No domingo seguinte mandou rezar uma missa em acção de graças na Capelinha de S. Bartolomeu, por tão grande milagre, á qual assistiu um grande numero de frades do Mosteiro e toda a gente das redondezas.

 

Superstições e Rezas

Correr o Fado

Antigamente os pais que tivessem sete rapazes ou sete raparigas todos seguidos, o mais velho tinha de ser padrinho do mais novo, se não o fosse o mais novo ia "correr o fado", que consistia que ao dar meia-noite ele ou ela transformava-se num animal, que galgava montes e vales até romper os primeiros raios de luz de um novo dia, esta situação só era revertida definitivamente, quando este animal era ferido e algum sangue corresse, transformava-se de imediato na pessoa que era totalmente nu e estava então quebrado o fado.

Rezas

Encontrar as coisas Perdidas

“Santo António pequenino se vestiu e se calçou
O seu caminho caminhou
E o Senhor o encontrou e lhe perguntou
António tu para onde vais?
Senhor contigo vou
Tu comigo não virás
Tu na terra ficarás
Quantas coisas se perder
Quantas tu encontrarás
Quantas missas eu disser
Quantas tu ajudarás.”·
Proferir esta oração sete vezes a modo de encontrar aquilo que se perdeu

Talhar as Aftas

“Ó estrelinha de lá de além
Tira as aftas que este(a) menino(a) tem.
Proferir a oração nove vezes.

Talhar o bicho

“Se isso é bicho
ou bicho ou cobra ou cobral
ou bicho de qualquer feição
mirrado seja aqui
com este carvão.”
Costuma-se talhar o bicho quando alguém tem comichão no corpo, ou então lhe aparecem aftas, entre outros males.

Adágios
Água mole, em pedra dura, tanto dá até que fura; A água faz criar rãs na barriga; Sopa acabada, boca molhada; Quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia; Se não queres engordar, come e bebe devagar; Se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir; Geada na lama: chuva na cama; Homem velho e mulher nova: filhos até à cova; Homem pequeno, saco de veneno;


Termos populares de comparação

Vermelho com um tomate; Bêbedo como um carro; Amargo como fel; Amarelo como cera; Direito como um fuso; Teso como um virote; Mente como uma cesta rota.

Tradições

A Luta do Pau

Na nossa região, os combates de pau nas feiras e romarias eram frequentes. Por vezes envolviam dezenas de pessoas, outras vezes as lutas eram individuais, ou de um jogador contra vários. Na romaria a S. Bartolomeu de Ervosa durante os anos trinta e quarenta do século XX, cada homem ou moço a sua vara, depois da cerimónia religiosa era frequente, num largo ali perto, haver conflitos entre os rapazes, que começavam a luta por qualquer pequena razão, um piropo a uma rapariga, os ciúmes de um namorado, uma briga de jogo da malha ou uma simples troca de palavras motivada pelo vinho que corria em abundância, uma discussão de lavradores por causa de canais de irrigação, e tudo se resolvia à paulada. Com o êxodo de muitos homens para as grandes cidades á procura de uma vida melhore e com a proibição pelas autoridades policiais do uso paus em feiras e romarias esta técnica de defesa pessoal caiu em desuso, sendo actualmente praticado algumas associações culturais no Norte do país.

Na literatura de Miguel Torga e Aquilino Ribeiro encontra-mos referências ao jogo do pau em descrições que nos transportam para outros tempos.

 

Animação de Festas

Gigantones e Cabeçudos

Com cerca de quatro metros de altura e um peso que varia entre os vinte e os trinta quilos e uma enorme cabeça de pasta de papel, os gigantones não passam de figuras humanas de grandes dimensões suportadas por uma estrutura com a forma de um corpo e onde o homem que o manuseia se introduz, carregando o boneco apoiado nos seus ombros, à sua volta apresentam-se os cabeçudos personificados por rapazes vestidos de forma desleixada que, num bailado quase tresloucado onde sobressai a enorme cabeça usada como máscara, fazem a animação popular, este conjunto está já bem enraizado na cultura popular portuguesa, podendo ser apreciado em grande parte das grandes romarias espalhadas pelo Norte do País, como forma de assinalar o início das festividades tradicionais.

Registo de Memória

Ilustração fotográfica de um cortejo de oferendas para o Hospital da Misericórdia nos anos 30 do século passado.

Oferendas

 

Hilário Sineiro Machado
hsineiro@iol.pt


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