A Lenda do Milagre de S. Bartolomeu
Nas minhas constantes pesquisas para a elaboração desta rubrica encontrei um artigo publicado Jornal de Santo Thyrso, de 20 de Março de 1953, assinado por Joaquim de Cidnay, e que nos relata um Milagre de S. Bartolomeu de Ervosa, acontecido nos princípios de século XIX, no tempo em que os Beneditinos ainda colhiam as suas rendas nos Lugares da Carvoeira, Cavadas e S. Bartolomeu. Tinham como seu recebedor o Sr. Bernardo Machado, da família dos Cavadas, mais conhecido pelo Bernardo do Recibo. Certo dia, andava o Sr. Bernardo do Recibo, na sua cobrança dos direitos do Mosteiro, e no Lugar da “Fonte da Piolha”, sentiu necessidade de descansar á sombra de umas frondosas carvalheiras, onde encontrou o Sr. Leandro, bom amigo, e logo entabulou conversa.
Estavam os dois amigos na melhor das harmonias, quando ouviram gritos de gente aflita para os lados de Cavadas, perante tal alarido, dirigiram-se a prestar socorro, a quem aflito o requeria.
Chegados ao local verificaram tratar-se da tia Eufrásia d’ Ervosa que vinha das azenhas d’ Argemil, onde fora buscar uma taleiga de farinha e que ao passar no Largo dos Cinco Caminhos, inexplicavelmente levantou-se tal ventania que a atirou por terra, resultando-lhe a perda de movimentos nas pernas acompanhadas de fortes dores. Os dois amigos, vendo no sofrimento da velhinha obra do Satanás, carregaram-na até á capela de S. Bartolomeu e lá rezaram os três a S. Bartolomeu, implorando remédio tão grande mal, ainda há bem poucos momentos tinham começado a orar, já a tia Eufrásia perdia os sentidos, para logo após recuperar as forças e levantar-se como se nada lhe tivesse acontecido.
No domingo seguinte mandou rezar uma missa em acção de graças na Capelinha de S. Bartolomeu, por tão grande milagre, á qual assistiu um grande numero de frades do Mosteiro e toda a gente das redondezas.
Usos e Costumes
Dicionário Popular – Dizeres do Povo
Palavras que ainda fazem parte do vocabulário popular e que tendem a desaparecer, quer pela introdução de neologismos, bem como por uma aculturação mais citadina.
MOINA = preguiça
ESTORCEGAR = torcer (um pé)
SISCO = pequeno corpúsculo, ou corpo estranho numa vista
PITA = galinha
GANDAIA = vadiagem, farra
RONCHA = criança gorda
RINCHEDO = brincadeira
CIBO = bocadinho, pequeno pedaço
SACHOS = unhas compridas
LONTRA = mulher gorda
RECO = porco
PATALOTO = com pés grandes
LAPAROTO = pouco despachado
PARLAPATÃO = tolo, que não sabe o que diz
LAZARADO = esfomeado, com apetite
EMBORCAR = beber com sofreguidão
TRAMBOLHO = alguém fisicamente desarranjado, mal feito
LAMPEIRO = apressado
ESCORROPICHAR = beber as últimas gotas de um copo ou chávena
FAZER POUCO = troçar
Adágios
Na casa manda ela, mas nela mando eu.
Não se lembra a sogra que já foi nora.
O bom filho à casa torna.
O pai avarento, filho pródigo.
O que houve no lar, diz-se ao luar.
Os filhos da minha filha, meus netos são, os da minha nora serão ou não.
Os filhos nunca cheiram mal aos pais.
Os pecados dos nossos avós, fazem-no eles e pagamo-lo nós.
Pai não tiveste, mãe não temeste, Diabo te fizeste.
Pobre e namoradeira, toda a vida solteira.
Que é mau pai, é mau marido.
Quem casa não pensa, quem pensa não casa.
Quem casa quer casa.
Quem não se sente, não é filho de boa gente.
Quem sai aos seus não degenera.
Quem tem filhos, tem cadilhos e quem não tem filhos, cadilhos tem.
Tal pai, tal filho.
Uns são filhos, outros são enteados.
Venha minha nora, mas venha cada dia e não cada hora.
Viúva rica, casada fica.
Alcunhas do Passado e do Presente
As alcunhas não são mais que uma caricatura cómica e verbal que a sociedade marginalmente atribui aos seus membros para os satirizar, são geradas por ocasião de factos os acontecimentos pitorescos, é um verdadeiro fenómeno social que, a dada altura assume-se como identidade da referida pessoa e pode mesmo passar a apelido familiar, estou certo que muitas mais alcunhas existiram para além daquelas que passo a referir, no entanto e sem querer ferir qualquer susceptibilidades, inúmero aquelas que me parecem as mais significativas.
Manel das Vacas; Pêssego; Pombas; Mil e Vinte; Velhinho; Estonado; Minhoca; Virgas; Pulgas; Casaquinhas; Vizelas, Polainas; Manetas; Chouriça; Sostro; Lita; Sardinha; Faneca; Néscios; Sete Olhinhos; Sacristão, Pé Ligeiro; Fúa; Surrasco; Cascões; Moucos; Gamelas, Chicopita, Soquinhas; Chicha; Carreto; Chaniso; Batata, Cagões e Maçaricos.
Jogos Tradicionais
Subida do Pau Ensebado
Num terreno amplo coloca-se ao alto um pau com três ou quatro metros de altura, previamente ensebado. Os participantes terão que subir para tentar apanhar o prémio que se encontra no topo, geralmente uma peixota de bacalhau.
REZAS
Encontrar as coisas Perdidas
“Santo António pequenino se vestiu e se calçou
O seu caminho caminhou
E o Senhor o encontrou e lhe perguntou
António tu para onde vais?
Senhor contigo vou
Tu comigo não virás
Tu na terra ficarás
Quantas coisas se perder
Quantas tu encontrarás
Quantas missas eu disser
Quantas tu ajudarás.”·
Proferir esta oração sete vezes a modo de encontrar aquilo que se perdeu
Talhar as Aftas
“Ó estrelinha de lá de além
Tira as aftas que este(a) menino(a) tem.
Proferir a oração nove vezes.
Talhar o bicho
“Se isso é bicho
ou bicho ou cobra ou cobral
ou bicho de qualquer feição
mirrado seja aqui
com este carvão.”
Costuma-se talhar o bicho quando alguém tem comichão no corpo, ou então lhe aparecem aftas, entre outros males.
Talhar a Camisa
Na zona da Várzea e Argemil, no final do século XIX e durante os meses de Maio e Junho, no arranque do linho, fazia-se uma brincadeira “rito” chamado “Talhar a Camisa”, que consistia em que os jovens casais rolassem aos pares por entre os campos de linho antes de ser arrancado, existia a crença que este procedimento proporcionava uma gestação sem complicações, um bom parto e filhos saudáveis.
Relatos Soltos - A Quadrilha do Lourenço
Este conhecido e mítico salteador, que roubava tudo e todos com extrema crueldade, tinha a sua área de influencia em quase toda a região de Vila Nova de Famalicão de onde era natural, fazendo por vezes incursões junto á Ponte da Lagoncinha e Argemil, conhecendo-se mesmo uma tentativa de assalto sem êxito ao Mosteiro Beneditino de Santo Tirso, conforme nos é narrado por Alberto Pimentel na edição de 1902 de Santo de Riba D’ Ave, pag. 54.
Deste salteador do século XIX, são conhecidos segundo a tradição oral relatos de assaltos acompanhados de extrema violência em nada semelhantes ao seu contemporâneo Zé do Telhado, que era chefe da quadrilha mais famosa do Marão, conhecido por "roubar aos ricos para dar aos pobres" e por isso muitos consideram-no como o Robin dos Bosques português, acabou por ser preso e na Cadeia da Relação conhece Camilo Castelo Branco em Março de 1859.

Contrariamente ao que muita gente pensa o Zé do Telhado nunca efectuou qualquer assalto na nossa região e não existe nenhum registo da época que relate tal facto.
Registos do Passado

A presente reprodução fotográfica transporta-nos para a actual Rua Zulmira de Azevedo com o imponente palacete da família Lemos e onde actualmente se situa o Centro Comercial dos Carvalhais.
Hilário Sineiro Machado
hsineiro@iol.pt |