Os Reis
O Cantar de Reis é uma tradição associada ao ciclo do Natal, cujas origens remontam às antiquíssimas celebrações universais do solstício de Inverno, tendo em conta que o sol, enquanto elemento central de todas as cosmogonias antigas, foi objecto de inúmeras cerimónias, ritos e cultos. Em pleno séc. IV a igreja católica aproveitou a festa pagã do nascimento do sol invencível e colocou o nascimento do Salvador nesta data particular do calendário anual de forma a aproveitar uma época propícia à difusão da boa nova de um Natal cristão. Daí a razão porque o Natal é uma festa que junta ingredientes religiosos e profanos. A adoração do Menino Jesus, com missas e presépios é acompanhada de lautas consoadas, troca de prendas, bailes e fogueiras. O epílogo deste ciclo festivo dá-se com a festa dos Reis que, segundo a tradição seriam Gaspar, Baltasar e Belchior, e que vieram do Oriente adorar o Messias, a quem ofereceram ouro, incenso e mirra. A origem, número e condição destas figuras é nebulosa, como nebulosa é a descrição nos textos bíblicos da estrela de Belém. A astronomia não sabe ainda hoje explicar a natureza do astro que guiou estes reis magos até à gruta de Belém. A cristandade glosou esta simbologia real, o encontro de um rei espiritual com reis temporais.
Ainda hoje, embora em menor numero surpreendidos pela tocata que nos aparece a porta a presentear-nos com velhas melodias anunciando a boa nova e a desejar um bom ano, é claro que são convidados a entrar para um repasto tradicional à base de frutos secos, rabanadas e vinho, vinho fino, jeropiga ou bagaço, para acudir aos rigores do Inverno
Convêm ainda referir que, se prestarmos atenção ás letras do cantar dos Reis, encontraremos, quase sempre uma alusão à «porta», o que nos transporta para a mitologia romana, onde Janus, era o deus das portas, das entradas e das saídas; também em algumas canções das Janeiras vamos encontrar referências aos frutos secos – figos e castanhas. O que nos faz relacionar com as ofertas de frutos secos também em honra do deus Janus, o nosso bolo-rei é preenchido por frutos secos, bem como a tradição de comer doze passas à meia-noite de 31 de Dezembro.
Óleo representando uma típica cena minhota de cantar dos Reis
Expressões populares
Acordar o cão que dorme; Andar de nariz torcido; Bater-lhe o pé; Cair como um pato; Cada cavadela cada minhoca; Com duas pedras na mão; Dar agua pela barba; Estar-se nas tintas; Fazer-se de alonso; Ir pentear macacos; Ir tudo para o maneta; Levar a cruz ao calvário; Nem vou lá nem faço Minga; Ouvir sermão e missa cantada; O diabo é tendeiro; Puxar a brasa á sua sardinha; Quem não te conhecer que te compre; Sem dizer agua vai; Tim –tim por Tim tim; Um pé lá outro cá; Vender gato por lebre.
Adágios
Água mole, em pedra dura, tanto dá até que fura; A água faz criar rãs na barriga; Sopa acabada, boca molhada; Quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia; Se não queres engordar, come e bebe devagar; Se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir; Geada na lama: chuva na cama; Homem velho e mulher nova: filhos até à cova; Homem pequeno, saco de veneno;
Termos populares de comparação
Vermelho com um tomate; Bêbedo como um carro; Amargo como fel; Amarelo como cera; Direito como um fuso; Teso como um virote; Mente como uma cesta rota.
Matança do Porco
A matança tem sempre lugar no Inverno, altura em que as actividades agrícolas estão reduzidas ao mínimo e a temperatura fria permitia a sua conservação. O dia da matança, para além se revestir de um certo cerimonial, era um autêntico dia de festa, para alguns mais um pretexto para uma farra, num ambiente de folia e de aproximação ritual da família e da comunidade.
A matança obedece a um determinado ritual que começa bem cedo com o matar do bicho com aguardente, boroa, chouriço e vinho tinto. Na cozinha as mulheres colocam as panelas ao lume e descascam as batatas.
O matador, especialista reconhecido coloca o animal em cima de um banco de madeira, e com um golpe profundo por baixo do pescoço consuma a morte e o sangramento, que é amparado nos alguidares. De seguida é chamuscado, segue-se a lavagem para o que se usa instrumentos de raspagem (espátula), água e por vezes sabão.
Após esta tarefa, dá-se inicio á abertura, sendo o animal pendurado com a cabeça para baixo, para se tirar o couracho, o subventre, o unto, o fígado, os rins, o coração, a buchada e as tripas.
Na manhã do dia seguinte procede-se à desmancha da carcaça, corte das carnes, repartidas e salgadas, e depois postas ao fumo. Fazem-se os chouriços e demais fumeiros, aproveitando as tripas previamente bem lavadas e cortados segundos tamanhos convencionais.
Alcunhas do Passado e do Presente As alcunhas não são mais que uma caricatura cómica e verbal que a sociedade marginalmente atribui aos seus membros para os satirizar, são geradas por ocasião de factos os acontecimentos pitorescos, é um verdadeiro fenómeno social que, a dada altura assume-se como identidade da referida pessoa e pode mesmo passar a apelido familiar, estou certo que muitas mais alcunhas existiram para além daquelas que passo a referir, no entanto e sem querer ferir qualquer susceptibilidades, inúmero aquelas que me parecem as mais significativas.
Manel das Vacas; Pêssego; Pombas; Mil e Vinte; Velhinho; Estonado; Minhoca; Virgas; Pulgas; Casaquinhas; Vizelas, Polainas; Manetas; Chouriça; Sostro; Lita; Sardinha; Faneca; Néscios; Sete Olhinhos; Sacristão, Pé Ligeiro; Fúa; Surrasco; Cascões; Moucos; Chica; Moucos; Trumba; Gamelas, Carecas; Melros; Vininhas; Chicopita, Soquinhas; Chicha; Carreto; Chaniso; Batata e Cagões.
Hilário Sineiro Machado
hsineiro@iol.pt |