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Extraordinário…

Cidálio CastroCongressos extraordinários suscitam, sempre, posições extraordinárias e extremismos que nos facultam a capacidade de ler nas entrelinhas as notas mestras do que se passará num futuro próximo e quem emergirá como o próximo líder do partido que acaba de realizar essa acção, o PSD. Aconteceu, assim, em Mafra, este fim-de-semana, com a primeira turbulência (falhada), incompreensível, de ver esse congresso reduzido a um dia de intervenções e, por consequência, a condicionar a voz de muitos militantes que se gostariam de expressar sobre o futuro do partido e sobre outras questões de primordial importância para acrescentar debate onde ele iria escassear. Assim não foi, felizmente, para aqueles que tinham por intuito dar a sua opinião e lançar algumas ideias. Isto sim, a acontecer, consubstanciaria uma incursão pelo mundo da “asfixia democrática”, num partido que tanto propalou aos sete ventos tal relutância e fez desse pergaminho a sua última bandeira. Claro que não passou despercebido que a bandeira mofava de tanta inverdade, passando, aos poucos, a um estado descolorido e sebáceo. Só que algo estava preparado para o fim e que torna este cenário ainda mais paradoxal: a aprovação estatutária da “lei da rolha”, isto é, da possibilidade de expulsar um militante que ouse dissonar do líder em tempo de eleições. Uma lição de liberdade de expressão… veja lá, nem a propósito!

MarceloÉ no decurso de tal congresso que notas dispersas nos deixam intrigados… notas e ataques que deveriam ser evitados num Estado de Direito Democrático… até porque as sondagens continuam a dar uma forte vantagem ao Partido Socialista caso as eleições viessem a realizar-se num futuro próximo, fruto de alguma instabilidade que decorre dum parlamento muito heterogéneo e duma crise internacional que teima em criar as inelutáveis sequelas da globalização. Uma das principais notas é o epíteto proferido por Marcelo Rebelo de Sousa à pessoa de José Sócrates, isto é, um ataque direito, com todas as letras – “o primeiro-ministro é mentiroso“. Quem ousa pedir a essa figura incontornável da democracia portuguesa que prove… Prove? Não basta soletrar palavras suscitadores de aplausos, e aplausos de pé, principalmente quando aos que sofrem de dores lombares ou mialgias colunares sempre agrada um momento de descompressão… e levantarem-se para aplaudir é um bom remédio para as lombalgias. Um comentador de renome como esta figura ancestral, secular, alguém com responsabilidades naquele partido, pois esteve na génese da sua fundação, tem de provar o que disse, tem de se retratar, tem de explicar ao país em que se fundamenta para chamar a alguém, com todas as letras e impropriamente (com o impropério torpe utilizado), de mentiroso, atentando contra a honorabilidade, o carácter e a respeitabilidade duma das mais altas figuras do Estado, em funções legitimadas e sufragadas por nós, eleitores.

Eu, Cidálio Ferreira de Castro, como eleitor e cidadão comunitariamente participativo, activo e responsável, sinto-me na obrigação e no direito de pedir esclarecimentos a esse orador: fundamente, exemplifique, produza prova concreta e substancial, diga “preto no branco” com que argumentos justificam tal afirmação. Eu quero saber… tenho o direito a saber… e se me convencer com dados irrefutáveis que, de facto, o primeiro-ministro é mentiroso, então eu ficarei esclarecido e tratarei de rever toda a minha linha de rumo quanto à apreciação que faço antes de exercer o meu direito de voto. Caso contrário, a tal des-socratização não vai acontecer pois o povo (aquele que mais ordena, embora muitos ainda tenham isso como um engodo de garganta) sabe discernir onde está a mentira nua a crua e onde mora a fábrica produtora dessa substância, quem gere a produção, onde se situa a linha de montagem, quais as chefias e como se lança no mercado.

Ora, se houve algo de extraordinário neste congresso foi, sem dúvida, o ordinário e sucessivo elenco de frases feitas, conjecturas ultrapassadas, défice de ideias para o país e para o encontro de soluções no que toca aos seus verdadeiros problemas. Logo, apraz-me concluir, com alguma mágoa pois a democracia não saiu reforçada desta reunião magna do maior partido da oposição, que as rupturas, as continuidades, os cortes com o passado, as viragens convergem num sentido único: destruir um dos maiores reformistas portugueses de todos os tempos. Não tenham ilusões… não vai ser fácil. O determinismo, as convicções, a lucidez, o perfil, os apoios intransigentes dos seus pares, são ingredientes de tal maneira fortes que não é qualquer comentador televisivo (por sinal pouco coerente com o que diz na televisão e com o que debita nos congressos), que derruba quem está muito acima de intriguismos pueris.

Cidálio Castro

voltar ] 14 de Março de 2010



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