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Secção Fala Quem Sabe


 

Na Geometria do Tempo

Tradições

Queima do Judas

As tradições mais profundas de sátira e crítica popular continuam bem enraizadas nas gentes do nosso concelho. Todos os anos, pela Páscoa, procede-se à "Queima do Judas".

Personificado por um tosco boneco com estrutura de arame e coberto de papel, com semelhanças físicas em relação aquele cuja crítica popular pretende atingir, que é ciclicamente imolado num auto-de-fé. Cada boneco encontra-se recheado de foguetes que rebentarão na altura da queima, a qual ocorre no lugar público mais frequentado do sítio, após a leitura do Testamento do Judas que é um conjunto de quadras populares que queimam o visado.

O “apóstolo maldito” serve, deste modo, de bode expiatório dos malefícios da obrigatória frugalidade da Quaresma.

Queima do Judas

Queima do Judas junto a sede da Associação Amigos do Sanguinhedo

 

Matança do Porco

A matança tem sempre lugar no Inverno, altura em que as actividades agrícolas estão reduzidas ao mínimo e a temperatura fria permitia a sua conservação. O dia da matança, para além se revestir de um certo cerimonial, era um autêntico dia de festa, para alguns mais um pretexto para uma farra, num ambiente de folia e de aproximação ritual da família e da comunidade.

A matança obedece a um determinado ritual que começa bem cedo com o matar do bicho com aguardente, boroa, chouriço e vinho tinto. Na cozinha as mulheres colocam as panelas ao lume e descascam as batatas.

O matador, especialista reconhecido coloca o animal em cima de um banco de madeira, e com um golpe profundo por baixo do pescoço consuma a morte e o sangramento, que é amparado nos alguidares. De seguida é chamuscado, segue-se a lavagem para o que se usa instrumentos de raspagem ( espátula), água e por vezes sabão.

Após esta tarefa, dá-se inicio á abertura, sendo o animal pendurado com a cabeça para baixo, para se tirar o couracho, o subventre, o unto, o fígado, os rins, o coração, a buchada e as tripas.

Na manhã do dia seguinte procede-se à desmancha da carcaça, corte das carnes, repartidas e salgadas, e depois postas ao fumo. Fazem-se os chouriços e demais fumeiros, aproveitando as tripas previamente bem lavadas e cortados segundos tamanhos convencionais.

 

Visita Pascal

Na Páscoa é celebrada a passagem da morte para a vida, da escravidão do pecado para a liberdade da vida eterna. Na quinta-feira, um dia antes da sua paixão, Cristo institui a Eucaristia, transformando o Pão e o Vinho no seu próprio Corpo e Sangue. Além disso, o próprio Jesus transforma-se no novo cordeiro que é imolado para o perdão dos pecados da humanidade e que dá a Ressurreição para a vida eterna.

A Páscoa celebrava-se já no sábado à noite, com a queima do Judas e encenação de passagens da Bíblia.

No domingo há a explosão festiva onde se verifica a Visita Pascal com o pároco que vai às casas das pessoas anunciar a Páscoa, como Maria Madalena anunciou que Jesus saíra do túmulo.

O beijar da cruz, tradição única no nosso catolicismo é mais uma manifestação religiosa que junta, nesta altura do ano, familiares e amigos numa manifestação única de harmonia e hospitalidade.

“ Cristo Venceu a morte! Fomos salvos em Esperança. Aleluia Aleluia. Glória ao pai e ao filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre! Ámen. Aleluia. Aleluia. ” Foi com esta saudação que o pároco entrava em cada casa, procedendo à bênção espargindo água benta por ocasião da Visita Pascal.

À entrada de algumas habitações a verdura no chão indicava o caminho. Depois da bênção e da saudação às pessoas presentes, a cruz foi dada a beijar a todas as pessoas, Seguidamente, o grupo do compasso era convidado a comer e a beber algumas iguarias que estavam em cima da mesa, como gesto de acolhimento. Na despedida de cada casa, repetiam-se os votos de um bom ano, e é deixada uma pequena oferta no saco para ajuda das despesas.

Em vários locais da paróquia faz-se o lançamento de foguetes que de vez em quando se faziam ouvir, anunciando a passagem de outras cruzes.

 

REZAS
Encontrar as coisas Perdidas

“Santo António pequenino se vestiu e se calçou
O seu caminho caminhou
E o Senhor o encontrou e lhe perguntou
António tu para onde vais?
Senhor contigo vou
Tu comigo não virás
Tu na terra ficarás
Quantas coisas se perder
Quantas tu encontrarás
Quantas missas eu disser
Quantas tu ajudarás.”·
Proferir esta oração sete vezes a modo de encontrar aquilo que se perdeu

 


Talhar as Aftas

“Ó estrelinha de lá de além
Tira as aftas que este(a) menino(a) tem.
Proferir a oração nove vezes.

 


Talhar o bicho

“Se isso é bicho
ou bicho ou cobra ou cobral
ou bicho de qualquer feição
mirrado seja aqui
com este carvão.”
Costuma-se talhar o bicho quando alguém tem comichão no corpo, ou então lhe aparecem aftas, entre outros males.

 

Plantas Medicinais (medicina tradicional)

A Medicina Popular e as práticas supersticiosas são por vezes associadas, no entanto é bom não esquecer que grande parte do conhecimento curativo do povo foi aproveitada de antigos tratados de medicina. (cfr. Curvo Semedo, Polanthea Medicinal, Lisboa, 1697 e Plantas Medicinais de Santo Tirso – Boletim Cultural - 1953).

Assim, passo a enumerar algumas plantas e o seu efeito terapêutico:

- Aipo, usado em chãs para doenças do fígado.
- Agrião, usado em xarope contra a bronquite
- Amieiro, as folhas são empregues nos abcessos
- Carqueja, em xarope para combater a bronquite
- Cidreira, em chás como calmante
- Erva-moira, em uso externo contra as otites e fistulas lacrimais.
- Eucalipto, contra o reumatismo e em chás contra as diabetes.
- Hipericão, é empregue como diurético e contra a litíase renal.
- Malva, contra a inflamação dos olhos.
- Melancia, para combater a diarreia.
- Salva, usado para limpar os dentes
- Tília, para combater a constipação.
- Urtiga, as raízes são empregues para as febres.

 

Registo de Memória

Procissão dos Passos

Representação fotográfica da procissão dos Passos em santo Tirso datada dos anos 40 do século passado.

Hilário Sineiro Machado
hsineiro@iol.pt


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