Desde 2005 que Portugal encetou um conjunto de reformas saudadas por todos os quadrantes da sociedade portuguesa, nomeadamente economistas, universidades, instituições civis e não civis, altas figuras do Estado, entre um conjunto de personalidades de reputada visibilidade profissional e intelectual. A reforma na educação (aulas a tempo inteiro, aposta no ensino pré-primário, aulas de substituição, refeições para todos, actividades extra-curriculares, ensino de inglês no primeiro ciclo, avaliação dos professores, reforma do estatuto do professor, do aluno e dos executivos, a requalificação das escolas, entre um sem número de medidas tendentes a dar um impulso significativo na qualidade do mundo escolar); a reforma da segurança social e o aplauso colectivo, nacional e internacionalmente, a reforma da justiça e a coragem crescente de mexer em interesses instalados e altamente injustos face a outras realidades sócio-profissionais, designadamente as férias dos magistrados; a reforma do ensino superior e a consequente aposta na excelência, nas novas tecnologias e investigação – hoje um dado adquirido e reputadamente considerado por figuras ligadas ao meio; a aposta nas energias renováveis e a clarificação de factores capazes de impulsionar e desenvolver um conjunto abrangente de políticas suscitadoras de novas visões sobre a emergência desta vertente no panorama industrial e energético português; as parcerias público-privadas tendentes a uma maior dinamização de relações nacionais e internacionais face à urgência do aumento das nossas exportações (hoje uma realidade insofismável); a reforma da Administração Pública, a desburocratização de inúmeros procedimentos arreigados a um conjunto de práticas não precursoras de evoluções que há muito se impunham; um punhado de reformas e reestruturações que seria, de todo, fastidioso e entediante aqui registar com toda a acuidade. Face a um défice de cerca de 7% em 2005, Portugal conseguiu descê-lo para 2,8% até 2008, um feito de rigor indesmentível no que às contas públicas diz respeito.
Ora, feita esta pequena e nada completa incursão pelos primeiros anos do anterior governo socrático, e estando tudo encaminhado para que o crescimento do PIB, o controlo do desemprego, a prossecução de novas reformas propiciadoras à abertura de novos rumos e desenvolvimentos para o país, eis que se instala mundialmente uma crise financeira sem precedentes. Daí até agora os resultados estão à vista – subida do défice e do desemprego. Todavia, caso não fosse feito um esforço redobrado de apoio às pequenas e médias empresas e a manutenção e incremento de políticas sociais activas, estaríamos todos bem piores. O recente plano de austeridade alemão (motor de toda a economia europeia) traz-nos à cabeça “uma frase batida – hoje é o primeiro dia do resto…” do aperto do cinto!? – deixa-nos a todos muito preocupados. Se Portugal ficar por aqui nas suas medidas, poderemos dar-nos por muito contentes, por mais que isto possa parecer inusitado e insensível… mas é uma realidade (relembro a Alemanha, a Hungria, a Grécia, a Espanha, a Irlanda, etc, etc, países cujos planos de reequilíbrio das contas públicas estão a gerar a maior das contestações e mudanças de choque em todas essas sociedades, o que levará inevitavelmente a convulsões profundas em todo o tecido social).
É por estas e por outras que digo em epígrafe que acho injusto, pouco correcto e intelectualmente desonesto enveredar pelo diapasão da crítica gratuita, infundada e assente na fome insaciável de liquidar politicamente o chefe do actual governo, cuja perseguição tem sido vergonhosa e, humanamente falando, inglória. Acredito que ninguém está isento de mácula e de culpa. Agora, um processo incessante de blasfémia, acusações improvadas, devassa da vida pessoal, entre muitos e muitos impropérios de vária ordem, em nada contribui para a estabilização do executivo legitimamente em funções.
Concluo com uma sábia frase de António Gramsci: "A crise consiste precisamente no fato, de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem." Interprete-se que depois de deixarmos de ouvir tantos velhos do Restelo e profetas da desgraça, seremos confrontados com o renascimento paulatino de novas esperanças, que atirarão para a sepultura política, os mórbidos sintomas de crises que existem, mas que na maior parte das vezes, são adubadas por muitos Pachecos Pereiras ressabiados.
Cidálio Castro |