A senhora economia não gera empatia, é rude, insensível e implacável. É a deusa dos tempos modernos, ostenta vaidades e perversões, é dona duma insensibilidade inclassificável e não se compadece com indulgências ou sentimentos de solidariedade e afectuosidade. Dominadora, aterradora, destila veneno de proporções ilimitadas, apronta estratégias que qualquer comum dos mortais não entende e não se coíbe de fechar portas na cara de quem ousa fazer-lhe frente. Estúpida, rezingona, malcriada, bem vestida exteriormente mas ostensivamente pútrida e cruel no seu mais íntimo pulsar, vai dando cartas e mais cartas com a altivez e a astúcia dum totalitarista, desprezando aqueles que têm da vida uma perspectiva mais vocacionada para a equidade, a igualdade, a solidariedade e a capacidade de discernimento social. É uma senhora de salto alto inacessível, cujos tacões obedecem a uma produção de matérias-primas nefastas, calculistas e, por consequência, castradoras de sonhos. Mas que senhora é esta? Que espécie de ser a quem todos genuflectem, prestam culto e endeusam palidamente!? Será uma desordem social, será incapacidade cognitiva, será amputação visceral da razão, será um sacramento desaguado de princípio, sem liturgia e sem ritualização do humano em sintonia com o divino - tendência normal num humanismo enraizado em valores de justiça social, de menos desigualdade e mais prosperidade universal? É muito difícil estabelecer um raciocínio mais ou menos lógico sobre tamanha divindade que a sociedade criou e agora não consegue agir, actuar, criar e recriar sem lhe pedir licença… não há nada mais incapacitante do que querer dar um passo, treinar uma meta, orientar um objectivo, impor a si próprio e aos outros uma ideia com sentido sem que se tenha que consultar essa filha da p… mas que mundo é este… que ditadura é esta… que futuro é este que estamos a sedimentar para os nossos descendentes!?
Aos seus pés a opressão, a condescendência e o amuo… aos seus pés depositamos as nossas esperanças, os nossos sacrifícios e os nossos receios. Aos seus pés o opróbrio, a nossa pequenez e a sensação extrema de nudez pessoal…. Todos lhe obedecem sem oposição… todos (economistas, doutores, políticos, empresários, bancários…) se vergam perante o tamanho da sua silhueta, esguia, imponente e incomensuravelmente segura. Que raio de criatura que ninguém ousa abater! Que tipo de lava asquerosa pulula por entre os continentes e oceanos, abraçando o universo, asfixiando propósitos e gerando cortejos de calvários que nunca mais acabam.
Nascida para reinar (ela e os seus heterónimos: défice, despesa, dívida, PIB, PEC, recessão, entre outros), a sua longevidade é proporcional à longevidade dos deuses de Olimpo, embora o culto e a submissão aos seus apelos não gere santidades, pelo contrário, constrói inimizades, invejas, muros betuminosos infrangíveis.
Que fazer, então, para arrancar deste pedestal esta senhora rude, insensível e implacável? Talvez relembrar as sábias palavras de João Paulo II: “A economia só será viável se for humana, para o homem e pelo homem”. A partir daqui, todos saberemos o que fazer.
Cidálio Castro |