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Por Hilário Sineiro Machado: «Na Geometria do Tempo»

Nesta rubrica de “Na Geometria do Tempo”, pretende-se de uma forma simples e sucinta abordar alguns aspectos históricos e tradicionais de forma a alertar, preservar e divulgar o que de mais rico temos na nossa terra.
Segundo esse prisma nesta edição proponho e sob a forma de alerta uma abordagem sobre as “Alminhas”, testemunhos silenciosos de um passado que tende a desaparecer e que por vezes nem reparamos na beleza que encerram.
As Alminhas são painéis pintados, retábulos ou imagens esculpidas, onde se representam os condenados a arder nas chamas do Purgatório, que são assistidos, no alto por figuras celestiais protectoras como o Cristo Crucificado, a Virgem do Carmo, S. António, S. Francisco e Anjos.
As Lendas que surgem recordam aos vivos a obrigação de rezar pelas almas dos mortos, de modo a dar-lhes alivio.
A origem e devoção das Alminhas deve-se ao movimento, que procurou revigorar o culto das almas no mundo católico, estas são a materialização plástica de uma das mais singulares, fortes e duradouras manifestações da piedade cristã de raiz popular, a devoção às Almas do Purgatório.
A génese desta devoção, a sua razão de ser e o seu florescimento têm por base a crença de que a alma dos justos, após a morte do corpo, terá de suportar uma margem de sofrimento proporcional às imperfeições, num lugar intermédio entre a terra e o Paraíso, o Purgatório, como foi designado.
A Igreja Católica Romana assimilou esta tradição no culto romano dos “ Lares Viales” e Lares Campitales”, sendo estes dedicados a pedidos de protecção, quer para viandantes, bem como para casais e terras, sendo as intenções a que se destinavam umas e outras bem diferentes.
Refira-se que o termo “Purgatório”, foi praticamente desconhecido durante a Idade Média, e em termos artísticos, estes não aparecem antes do século XV, isto devido ás controvérsias entre a Igreja do Oriente e do Ocidente.
A Igreja institucional respondia às formulações heréticas com as vigorosas teses dos concílios, o II de Leão em 1274 e o de Florença no ano de 1439, que afirmam como verdade a existência do Purgatório e a validade da oração respondia às teses contra-reformista com a aprovação, na XXV Sessão do Concílio de Trento, no final de 1563, do dogma da existência do “Purgatorium”.
O povo cristão interpretava por seu turno a resposta da Igreja e multiplicava as formas, os caminhos para chegar junto das almas dos irmãos em sofrimento e liberta-las, com orações, missas e esmolas.
Assim aconteceu um pouco por toda a Europa Católica. E Portugal não foi excepção, mais no Norte do que no Sul, e também na Galiza se singulariza uma forma de interceder pelas Almas do Purgatório.
Cedo se instalaram com capela própria, definiram ajustadas formas de intervenção onde decerto teve grande relevância a prática artística de execução de retábulos, de pintura de bandeiras com uma iconografia típica que se afirmava na Europa do Sul desde há muito e onde o aparato de uma fogueira significava o Purgatório onde os corpos semi nus e as almas dos justos que sob a forma de anjos as vinham retirar logo que limpas de imperfeições
A divulgação desta expressão de religiosidade popular no nosso país, muito deve a um pintor Lisboeta que viveu entre 1550 e 1631 de seu nome, Luís Álvares de Andrade, apelidado de pintor Santo, que se entregou à divulgação do culto das Almas utilizando como instrumento de enorme eficácia a pintura de tabuinhas com a representação do Purgatório, que pregava nas portas da cidade e noutros lugares públicos, prenunciando já o seu formulário, o estilo que irá encontrar-se mais tarde em mil retábulos.
Encontramos estes pequenos templos nas praças, em encruzilhadas, nas pontes, em todas as saídas e entradas de povoações, em locais isolados. Colocados em nichos ou em simples muros, sendo o seu interior em barro, em zinco pintado, em azulejo ou madeira, alguns destes pequenos retábulos são acompanhados da legenda “ Ò Vós que ides passando. Lembrai-vos das almas que estão penando”, muitas delas têm como protecção grades em ferro forjado, em forma de cruz e ou motivos geométricos.
Os homens passavam de manhã e de tarde, descobriam-se e rezavam, havia quem colocasse flores, às vezes, quem acendesse velas, quem enchesse de azeite a lamparina pendurada numa haste de ferro. E então eram votos ou promessas que se cumpriam, que também podiam ser pagas em dinheiro.
Para tal, existiam cofrezinhos cavados na pedra com tampa de ferro chumbada e uma chave entregue a um mordomo. E com as pobres moedas recolhidas rezavam-se missas na igreja ou dava-se a um pobre a esmola de um caixão.
Nenhuma devoção popular se prolongou através dos tempos como esta, na alma do grande povo, que também rezava na igreja, mandava celebrar missas sem conto, oferecia esmolas de pão cozido quando um conjugue morria, pagava alqueires de trigo como encomendação de uma alma, ao domingo, participava nessa quase secreta cerimónia da Encomendação ou Amentação das Almas, na Quaresma, rezava padres-nosso ao findar o almoço nos dias da matança do porco.
No concelho de Santo Tirso, contam-se mais de cinco dezenas destes pequenos templos, onde me permito destacar as Alminhas de Pidre pelo seu estilo e imponência, na freguesia de Agua Longa, mandada construída por um almocreve como acção de graças, as Alminhas de S. António na freguesia de S. Miguel da Lama datadas de 1892 e as Alminhas situadas na Rua Zulmira de Azevedo aos Carvalhais pela sua antiguidade mas também pela excelente painel de azulejos.

Rua dos Carvalhais
Rua dos Carvalhais no ano de 1901, onde podemos observar as Alminhas no lado direito da foto

Sendo estes monumentozinhos parte importante de um passado em desaparecimento a aguardar o nosso olhar atento sobre eles, para os recuperemos, como um património, que contribuiu para definir a identidade do nosso povo.

Hilário Sineiro Machado
hsineiro@iol.pt


voltar ] 5 de Julho de 2008

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