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Lendas e Tradições - A Lenda do Espada a Rastos

Nas lendas encontramos o mundo da imaginação do homem confrontado com as grandes interrogações para as quais desde os princípios dos tempos sempre tentou encontrar respostas.
No ano de 1834 estava-se em pleno período das lutas liberais, guerra que opunha partidários de D. Pedro (os liberais) às forças de D. Miguel, que viriam a ser derrotados em 1846 com a revolução da Maria da Fonte.
È neste cenário de escaramuças um pouco por todo o país, que surge um Alferes de Cavalaria das tropas leais a D. Pedro, que depois de encerrar o Convento Beneditino de Santo Tirso, instala o seu quartel general na Quinta de Gião, o que motivou a fuga dos seus legítimos proprietários.
As anos foram passando, a guerra acabou e o alferes decide apodera-se da Quinta, propriedade que para além da casa solarenga com pedra de armas (brasão) da família Lopes Ribeiro, executado em granito, datado de 1577, situava-se na padieira da porta em frente ao eirado, possuía olivais, bosque, campos de cultivo com sistema de regadio próprio e produção de azeite.
Já com idade avançada o Alferes morreu sem deixar descendentes, ficando como herdeiras umas sobrinhas afastadas a quem o povo apelidou das “senhoras de Gião”.
Quem o conheceu em vida caracteriza-o como um homem de baixa estatura, inspirador de respeito, mas afável, apesar de rumores de um romance amoroso que manteve com uma criada e a morte obscura do filho de ambos, seja menos abonatório para esta personagem envolta em mistério, sendo o seu maior pecado ter tomado posse indevida de terras, o que o condenou a penar pela eternidade.
Estava, assim, criada a lenda do espada a rastos, com relatos fantasmagóricos alimentados pelo imaginário popular.
Contavam os mais velhos que logo após as trindades quem atravessa-se a Quinta ou passa-se no Corvilho (actual Rua D. Maria do Carmo Azevedo), ouvia passos acompanhados do arrastar de uma espada, chegando aqueles mais fracos de espírito a ver uma miragem ténue e esbranquiçada de um oficial de cavalaria montado no seu cavalo branco.
Muitos relatos existem sobre a quinta e o alferes, no entanto em contactos que estabeleci com pessoas de muita idade residentes na margem esquerda do rio Sanguinhedo, junto á extinta quinta, ainda subsistem algumas reticências em abordar o assunto.
Com a morte das “senhoras de Gião” e a crise de sucessão de herdeiros, a casa foi vandalizada, sofreu um incêndio que a destruí por completo, libertando o alferes do quarto onde estava aferrolhado, segundo diz o povo, sendo certo, que no referido quarto se registava um facto curioso, não havia mobiliário e no centro e sobre o soalho apenas existia uma casaca de alferes, umas botas e a famosa espada.
Ainda hoje há quem afirme que nas noites escuras de Inverno, e quando o vento sopra com mais intensidade, se ouve os passos com o rastejar de uma espada.

Acreditando ou não nesta narrativa, o que importa é salientar que faz parte integrante dos contos fantásticos das gentes de Santo Tirso e que não deve ser esquecida.

Pedra de Armas

Ilustração aproximada da Pedra de Armas da Quinta de Gião

A julgar pela inscrição que existia na padieira da porta em frente da escada do eirado e por debaixo da pedra de Armas, terá sido o Licenciado Amador Ribeiro que mandou construir a Casa de Gião.
O escudo apresentava uma forma peninsular, esquartelado e representava, 1º - uma flor do lis, 2º - uma estrela, 3º - três faixas bastilhadas, soltas no flanco esquerdo, 4º - flor do lis ( estávamos na presença da reunião das armas dos Lopes de Cuidade Rodrigo com as dos Lopes) e a inscrição “ESTAS CASAS MANDOV FAZ…/ O Ldº AMADOR RIBEIRO 1577”, esta casa manteve-se sempre na mesma família até ao sua extinção, tendo sido as ultimas proprietárias a D. Maria Correia de Oliveira e sua irmã, D. Ermelinda Correia de Oliveira, que faleceram solteiras e que são Ribeiro por linha feminina.
Amador Ribeiro foi Licenciado pela universidade de Coimbra, ao que se sabe exerceu funções paroquiais e teve serias desavenças com os monges do Mosteiro de S. Bento.

Proprietários da Casa e Quinta de Gião

Proprietários da Casa e Quinta de Gião finais do Século XIX

Hilário Sineiro Machado
hsineiro@iol.pt
Um dos proprietários da Quinta de Gião


voltar ] 19 de Julho de 2008

Proprietários da Casa Gião

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