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Fausto José e Luís Veiga Leitão
Do Granítico geográfico da paisagem à doçura da Poesia

Dois poetas conte (rrâneos) mporâneos

Por Dr. Américo Teixeira Moreira

 

O que liga estes dois poetas?
Antes de mais a relação geográfica, a morfologia paisagística, embora Fausto José aqui mais a sul do distrito de Viseu, Armamar, o douro vinhateiro, Luís Veiga Leitão, mais planautico e granítico Beirão, Moimenta de Beirão, mas para além disso, liga-os a voz telúrica mátria e simples que ecoa na poesia ambos.
Liga-os o desprendimento e a solidariedade para com os mais fragilizados ou os desgraçados da sorte.
Um mais granítico, andarilho, de voz incómoda que conheceu, por isso, a prisão da ditadura Salazarista, onde escreveu um poema tão solidário com o ex. Dono da sela onde ele se encontra agora encarcerado, como demonstrativo da insubmissão do pensamento livro. A solidão e a angústia não o impedem de sair das grades e viajar pela imaginação – leia-se o poema Bicicleta:

A uma bicicleta desenhada na cela”
Nesta parede que me veste
Da cabeça aos pés, inteira,
Bem hajas, companheira,
As viagens que me destes.
Aqui,
Onde o dia é mal nascido,
Jamais me cansou
O rumo que deixou
O lápis proibido…
Bem-haja a mão que te criou!
Olhos montados no selim
Pedalei, atravessei
E viajei
Para além de mim.”


Luís Veiga Leitão humano, discreto, tinha a capacidade de partilhar e de resistir, como o demonstram os versos: ” Homem de qualquer mundo, homem:/levanta os gumes do perfil da fome/ceifado o medo rente ao fundo/ não há sombras que te domem.
No entanto esta forma de viver contrasta, aparentemente, com o que deixa transparecer nos seus textos, onde a rudeza xistosa duriense e dureza da pedra, marca, justamente, uma certa rebeldia e uma vante de se isolar na asfixiada, no dizer do critico Serafim Ferreira, sempre livre, numa certa simplicidade seca e forte, na matéria metamorfoseada como se poderá constatar no poema “ Biografia Pétria” que serviu de título ao livro, Ou as angústias traduzidas no poema,” A uma bicicleta desenhada na cela”, de que atrás falamos, para mim o mais fantástico representativo da força criativa, do desejo de ser livre e da prodigiosa imaginação do Luís Veiga Leitão, do livro “ Noite de Pedra

O que têm de comum Fausto José e Luís Veiga Leitão?

Todas as palavras intactas se quebram. Incapazes de transportar o peso que os poetas carregam. No fundo o poema, qualquer poema é um canto de derrota: silêncio e voz de fracturas”, mas também de compromisso com o tempo, solidária e perversa, provocadora e criativa, filosófica e simples e nesta singela simplicidade está o ponto de encontro entre os dois poetas. Claro que dizer isto, não chega para demonstrar o que têm de comum. O Poeta Fausto José esteve ligado à corrente literária, A Presença e em questões de arte ou pensamento, A Presença não reconhece chefes, nem legisladores, nem ditadores. Se entre os seus colaboradores algum apareça em quem a força do temperamento, a capacidade afirmativa ou construtiva e as tendências autoritárias denunciem uma predestinação de ditador, - presença não julga, por isso, dever eliminá-lo de seu colaborador. Mas o que nele lhe interessa é o homem como homem, o pensador como pensador, o artista como artista. Aceita nele uma personalidade poderosa, em o sendo, - mas fica indiferente aos ditames de ditador. [Presença (28). Ag. - out. de 1930.] da cidadania, do criador falarei mais à frente. Fausto José privou com quase todos os presencistas, pelo menos com os mais destacados, a que se juntou, na sua terra natal “ Aldeias” a escritora Agostina Bessa Luís.
Luís Veiga Leitão era um homem afável, simpático, profundamente humanista, de olhar sereno e comprometido com os valores democráticos e da humanidade, desprendido e conversador, tinha sempre uma palavra de confiança na juventude, forjando na consciência de que as coisa do mundo, as pessoas e os regimes ditatoriais só têm fim se todos tomarem consciência aguda de que a liberdade se conquista todos os dias e sempre entre a acção cívica e a paixão de querer um mundo melhor, exortando o mundo para que se não deixe tolher pelo medo.
Para que serve a poesia? Prigent diz que a poesia é uma exigência da inquietação, enquanto houver inquietação haverá, portanto, poesia, porque a poesia é a expulsão do sono humano quando à nossa volta só vemos limites dolorosos, incomunicabilidades e fazedores de desumanidades.
Embora integrada no movimento da Presença, a poesia de Fausto José poucas afinidades estéticas e temáticas tem com as linhas de força presencistas
A nossa fantasia é como um cego
Exposto à solidão e ao perigo
Põe-nos a vida num desassossego
Afoita a mundos como herói antigo.
.
Se aquela vã quimera assim me entrego,
e de olhos doces, deslumbrado a sigo,
ó pátria, não, não te nego,
pois sempre na minha alma eu te bendigo.
Fausto José, mais explorador da natureza dela desfrutando, do lajedo bruto, da serra e da caça, mas nem por isso menos lúdico viajante como demonstra alguns dos seus textos onde pulsa o mesmo assombro a mesma religiosidade dramática, no qual se sente integrado nos quadros paisagísticos, veja-se como exemplo este pequeno texto, dedicado a Aquilino de Soutosa, aqui vizinho e contemporâneo
[…] Só pragas e só mortes! E ventos, gelos, névoas e solidão! Mas terra onde o meu cordão encontra paz, esquecido do mundo e da vida. Caçador daqueles montes onde… onde gostaria que me fosse cavada sepultura.
Ah! Terra bem dita! Não muito: os olhos humedecidos de ternura, quantas vezes dos joelhos, a beijaram …]
Há nas suas poesias, suas de ambos, a melodia das coisas simples, em nós submersas de emoções e sentimentos mais visível em Fausto José em “O livro dos Mendigos”,
Sirvo-me destes dois versos para o demonstrar
“e neste humilde gesto em que me deu tudo sentir que sou um vosso irmão.

Liga-os a “Poesia Trasmontana e Alto-Duriense e Beirã, a grandeza da brutalidade bela da pedra, as vivências da terra sentidas por ambos como uma epifania. Fausto José, mais exploradores da natureza dela desfrutando, do lajedo bruto, da serra e da caça, mas nem por isso menos lúdico viajante como demonstra alguns dos seus textos onde pulsa o mesmo assombro a mesma religiosidade dramática, no qual  se sente integrado nos quadros paisagísticos, veja-se como exemplo este pequeno texto, dedicado a Aquilino de Soutosa, aqui vizinho e contemporâneo
[…] Só pragas e só mortes! E ventos, gelos, névoas e solidão! Mas terra onde o meu cordão encontra paz, esquecido do mundo e da vida. Caçador daqueles montes onde… onde gostaria que me fosse cavada sepultura.
Ah! Terra bem dita! Não muito: os olhos humedecidos de ternura, quantas vezes dos joelhos, a beijaram …]
Há nas suas poesias, suas de ambos, a melodia das coisas simples, em nós submersas de emoções e sentimentos mais visível em Fausto José em “O livro dos Mendigos”,
Sirvo-me destes dois versos para o demonstrar
“e neste humilde gesto em que me deu tudo sentir que sou um vosso irmão.

Liga-os a “Poesia Trasmontana e Alto-Duriense e Beirã”, o poeta Fausto José
(1903-1975). Natural de Armamar, no distrito de Viseu, aí viveu quase toda a sua vida, exercendo funções de conservador do Registo Civil e presidente da Câmara. Formou-se em Direito em Coimbra, onde estabeleceu relações de camaradagem com alguns dos nomes da Presença, a importante revista da chamada segunda geração modernista, na qual colaborou. Ao longo da vida manteria correspondência com José Régio e António de Serpa – outros dois poetas da Presença, que aliás o visitavam frequentemente em Armamar. Embora integrada no movimento da Presença, a poesia de Fausto José poucas afinidades estéticas e temáticas tem com as linhas de força presencistas,

Ao longo da vida manteria correspondência com José Régio e António de Serpa – outros dois poetas da Presença, que aliás o visitavam frequentemente em Armamar. Embora integrada no movimento da Presença, a poesia de Fausto José poucas afinidades estéticas e temáticas tem com as linhas de força presencistas,
Toda a sua arte nasce de uma chama interior, aqui se aproximando de Luís Veiga Leitão, de uma sensação de vazio, de desamparo, de insatisfação. A escrita é o reinventar da vida em águas mais mansas, a busca da quietude plena do espírito, o desfazer do caos. E é quase sempre a mulher que emerge nos versos, nas estrofes: «A terra é seca, é árida, é ingrata / sem ter o olhar de uma mulher. / Só a mulher à terra prende e ata / com invisível nó que o Amor sugere.» (2) De outro modo, a existência não faz sentido. «Tudo o que sinto ou sonho e me desvaira, / a cor, o som, o aroma da paisagem / que eu vejo longe porque d’alto paira / sinto puríssimos em certa imagem...// A imagem d’Essa doce rapariga / alegre, sã e fresca como a aragem / do Amor que a face ainda me fustiga / para que eu viva a Vida com coragem.» (3) A mesma obsessão quando a paisagem se desdobra diante dos seus olhos: «Ao longo desse langoroso Lima / o pensamento em que me alongo pende / para um barco à vela rio acima, / um barco à vela que na água esplende. // E a vela arfando fresca ao leve vento / lembra-me, branca, a sua bela blusa, / a blusa dela justa – o meu tormento - / com que ficava, olhando-a, tão confusa. // O barco à vela, majestosamente, / que ao longo desse rio sobe além / parece-me Ela a aproximar-se, rente, / que em Seu andar inconfundível

na hipótese de que a sinceridade do indivíduo que escreve importa mais do que a técnica e o trabalho com a linguagem — a ingenuidade e o deslocamento temporal da concepção presencista de arte. Naquele tempo assomava o teatro de máscaras de Pirandello, a autosondagem psíquica, às vezes vertiginosa, em I. Svevo, F. Kafka, J. Joyce, A. Machado e F. Pessoa (cujo verso “fingir é conhecer-se” contradita a crença presencista numa arte ética fundamentada na sinceridade de quem escreve), a poética fragmentária e a impessoalidade de Pound e Eliot. Diante da quebra da unidade do “eu” e da multiplicação da personalidade, em seus diversos graus e em suas diferentes formas de representação, o que se estabelecia como linha de frente dentro da Presença estava muito aquém daquilo que hoje entendemos como algumas das mais freqüentadas tendências do século XX.

 


voltar ] 31 de Julho de 2008

Dr. Américo Teixeira Moreira

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